quarta-feira, 17 de julho de 2019

Ira Santa

Um homem sem sonhos
Tem dois destinos: matar-se ou se tornar assassino.
Tirem do homem sua esperança
Ele se fará uma bomba,
Personificará uma lança.
Faça-se do homem um miserável,
Desempregado, esmoler sem dignidade,
Ele se fará a quem oprime a chaga mortal,
A última praga, juiz e executor, do juizo final.
Eis como à luz do alvorecer
O homem amável e cordial
Pode ser fera, monstro incontrolável,
Na penumbra do anoitecer.
Nenhum inocente ou justo sobrevive
Escravo acorrentado, cidadão sem classe,
Se lhe arrancam à força a civilidade,
Se lhe matam na alma a humanidade.
Em tempos como estes
Há que se petrificar o amor ágape
E liberar do peito às mãos a ira santa
Neste tempo de obscuridade
Impõe-se ao mais pacífico dos homens
Pegar em armas, derramar sangue
[O seu e dos tiranos]
Nas trincheiras das ruas e praças
Em defesa da integridade
Tão humilhada e escassa
Ave, liberdade!

O lançamento do novo livro de contos do escritor Antonio P. Pacheco, "O Universo no Espelho - Aqueles Outros e Suas Versões das Históri...