quarta-feira, 17 de julho de 2019

Ira Santa

Um homem sem sonhos
Tem dois destinos: matar-se ou se tornar assassino.
Tirem do homem sua esperança
Ele se fará uma bomba,
Personificará uma lança.
Faça-se do homem um miserável,
Desempregado, esmoler sem dignidade,
Ele se fará a quem oprime a chaga mortal,
A última praga, juiz e executor, do juizo final.
Eis como à luz do alvorecer
O homem amável e cordial
Pode ser fera, monstro incontrolável,
Na penumbra do anoitecer.
Nenhum inocente ou justo sobrevive
Escravo acorrentado, cidadão sem classe,
Se lhe arrancam à força a civilidade,
Se lhe matam na alma a humanidade.
Em tempos como estes
Há que se petrificar o amor ágape
E liberar do peito às mãos a ira santa
Neste tempo de obscuridade
Impõe-se ao mais pacífico dos homens
Pegar em armas, derramar sangue
[O seu e dos tiranos]
Nas trincheiras das ruas e praças
Em defesa da integridade
Tão humilhada e escassa
Ave, liberdade!

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Resistência


Entre os dentes a faca
Afia a alma nos amolares
Da faina sob os fardos
De esperanças raras.
Àh, os sorrisos bailantes
Dos jovens idealistas
Nas passeatas de antes,
Nas trincheiras das ruas,
Nos pátios e praças
Onde as liberdades se encontram.
Eis que os ossos
Da terra profunda clamam
A palavra “vida”
A carne do tempo perdido.
Entre o esquecimento de agora
E o altar do futuro
Um rio de sonhos
No deserto de silêncios evapora.
Nem tudo, em fim, é tristeza e dor
Sendo fértil o coração
Uma semente há de resistir
Aquela que eternamente
frutifica em amor.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Canção da Despedida


Já não seremos como antes
Amada e amante
Quando as tardes de ontem
Forem só uma lembrança
Uma data e um flor seca
Pálida e sem perfume
Em uma agenda esquecida
Numa gaveta da estante.
Já não seremos mais
Corpo e alma
Selados na carne
Quando nossos olhos embaçados
Mirarem pela janela
Outros horizontes,
Outros mares
Além do agora e da ausência
Das noites adolescentes.
Já não seremos nós
Seres radiantes
Duplicados nas nossas retinas
Naquelas noites envelhecidas
Em que esfriam as cinzas
Da paixão pouco a pouco consumida.
É triste, eu sei, o que digo em silêncio
Nestes dias luminosos ainda.
Como negar a despedida
Se o tempo na estação
Já segue o seu caminho?
Como calar a verdade
Às coisas efêmeras
Como a brisa, o perfume e o sorriso?
E é por isso que, sendo fugaz,
Como um raio de sol ou uma carícia,
O amor, creia, vale a pena
Pois encerra em si a eternidade
Em um micro-átimo de vida. 

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Vácuo


No ermo de mim
Busca a paixão
Uma morada que lhe acolha
Um lugar de descanso para o fim.
Nada há de abrigo no peito
O vazio preenche o todo
Da alma ao corpo
Largado sobre o leito.
Além das paredes
O mundo jaz deserto
Universo sem vida
Que valha a pena ser vista.
Pulsa ainda a veia aorta
Recusa-se, o coração, a morte
Resiste a mente a crer
Na realidade inconveniente.
Um zumbido se faz canção
Um sussurro revela segredos
Em palavras consumidas
Na absoluta solidão
                [Do céu da boca que tudo cala.]

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Contramão

O peso de ser nada
No pensamento
E no coração de alguém amado
Equivale à pena de ser aço
Em uma âncora perdida
Num deserto
De ondas petrificadas.
Queira a alma do navegante
O abraço afetuoso
Dos ventos cálidos de agosto
E a brisa sedutora de seu hálito.
Inútil é sonhar alegrias
Com o coração em pedaços.
Da confiança rompem-se os cordames
E já o amor naufraga
Bem antes do primeiro beijo
No porto frágil de esperança.
O que há de consolo neste molhe
É aquela vaga lembrança
O sutil toque de mãos
Num incidente casual
De quem na vida
Anda sempre na contramão
Da arisca felicidade.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Carpe Diem


No outono grávido de um inverno bastardo
Calam-se os pássaros nas cumeeiras
E nos céus recolhem-se as estrelas
No silêncio denso da madrugada
Os galos esquecem as auroras
Não há tempo para lágrimas
Por trás das janelas cerradas
Corações apaixonados naufragam
Longe dos olhos amados
Um cão atravessa a noite fria
A lua despedaçada pendurada na boca
Sangra dores novas e antigas
No coreto da praça central
Os andarilhos assistem extasiados
A morte sacrificial dos sonhos virgens
Em honra da realidade premente
Para quê serve a utopia, mãezinha?
Para que a vida não se perca, criança,
Antes mesmo de germinar a semente
A esperança que alimenta
As almas de tudo o que é gente.
O relógio da matriz badala
Impondo o despertar inevitável
De mais uma segunda-feira ranzinza
Uma buzina na esquina
Uma porta range
Uma sirene
A fome e a faina
Um cheiro de café
Dispersa última neblina.



 

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Última luz

Quando o tempo passa
Sua sombra imprime-se na face
As cores da pele descascam
Em rios secos, rugas fartas,
Pelas bordas desbasta-se
As margens da juventude gasta
É a vida que mingua em jorros
Cada dia mais caudalosos
A voz se afoga no lago plácido
Do esquecimento rápido
Eis que acena na última curva
A silhueta infantil da morte
Esta criatura fascinante e misteriosa
Que na consciência profunda  se oculta
Enquanto espera para nascer 
                                [Já irremediavelmente velha]
Na última luz dos olhos baços
Antes do adormecer absoluto.


/> Da Redação /> Você já parou para pensar no quintal onde cresceu? Naquele cheiro de terra molhada, no barulho do rio, no fre...