sexta-feira, 13 de março de 2020

Enfermidade



Eu admito, contrito pela vergonha,
Sim, tenho escrito versos amargos
Bem sei que são travosas as minhas rimas
Quem sabe me perdoe a Musa e os escassos leitores?
É que desaprendi a receita da doçura
Esqueci como se escreve
todas as brandas palavras
Da balança da inocência perdi os pesos
E as frases românticas se azedaram
antes de chegar a hora
E já não servem mais na minha forma poética
As ingênuas paráfrases de antigamente
É que o 'eu lírico' deste velho poeta
Contraiu Alzheimer de carinhos
Não se lembra mais do que é estar apaixonado
E os seus olhos cansados
Estão agora míopes de solidão
Já não enxergam a luz da felicidade.

.

Enfermedades


Lo admito, contrito por la vergüenza
Sí, he escrito versos amargos
Sé que mis rimas son dolorosas
¿Quizas, puedo perdonarme la Musa y los pocos lectores?
Es que desaprendí la receta de la dulzura
Olvidé cómo deletrear
todas las palabras suaves
Perdí los pesos de la báscula de la inocencia
Y las frases románticas se agriaron
antes de que llegue el momento
Y ya no sirven en mi forma poética
Las paráfrasis ingenuas de antaño
Es que lo "yo lírico" de este viejo poeta
Contrajo Alzheimer de afectos
Ya no recuerdo lo que es estar enamorado
Y tus ojos cansados
Ahora son miopes en la oscura soledad
Ya no ven la luz de la felicidad.

Sinais

A manhã nasceu com cara de quarta-feira de cinzas em fevereiro. Mas, já era novembro no calendário. O silêncio invadindo a casa toda prenuncia o tsunami de solidão. Guimbas de cigarro fossilizadas no cinzeiro são sinais pré-históricos da sua existência passageira. No chão, garrafas sedentas e taças desérticas compõem a paisagem contemporânea. Do que foi a vida ontem, sobrartam esses hieróglifos pré diluviano de despedida e amor extinto. E, esquecida no banheiro, uma velha escova de dentes, inútil agora que já não está.

Señales


La mañana nació con la cara del un miércoles de ceniza en febrero. Pero, ya era noviembre en el calendario. El silencio que invade toda la casa presagia el tsunami de la soledad. Las colillas de cigarrillo fosilizadas en el cenicero son signos prehistóricos de su existencia pasajera. En el suelo, botellas secas y vasos sedientos conforman el paisaje contemporáneo. De cómo era la vida ayer, solo quedaron estos jeroglíficos de despedida al amor extinto. Y, en el baño, olvidado,un viejo cepillo de dientes, inutil ahora que ya no es.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Além da janela

Todo corpo é vasto mistério
Visões idílicas e abismos
Todo ser é mistério
Descobertas e saberes
Toda vida é cosmos
Universos distantes
Sombras noturnas
Amanheceres oníricos
Toda dor é cume
É fosso e túmulo
Todo riso é espelho
É renascer e brilho
Tal amor em nós é ventre
É seio que amamenta
Tal alegria é fonte
É oásis e abrigo
Em você todo o princípio
Um universo inteiro
Em mim o caminho
O meio e o fim
Além da nossa janela
O nada resta contido.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Absinto

A fonte estéril
dos olhos queimam
Cristais de sal antigo
Lágrimas imemoriais
A palavra despedida
No coração grafada
À faca
Aguda chaga
Que a alma sangra
Em inútil sacrifício
Jaz ao leito inerte
O amor
Que um dia foi
O corpo do outro
Sobre a pele
Cingida de ruínas e cinzas
A luz da lua fria
Sorve o último gole
De desejo e absinto
Antes da aurora tardia.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Agosto

Ma songerie aimant à me martyriser
S'enivrait savamment du parfum de tristesse
Que même sans regret et sans déboire laisse
La cueillaison d'un Rêve au coeur qui l'a cueilli.
(Mallarmé, in Apparation)



Sob a hirta lua
Deste cinza céu
De agosto ardente
Desfaz-se de súbito
A ira no canto da boca
O riso brota
Num instante lúcido
O passo derradeiro
Sobre o vácuo do abismo
O silêncio livre
Ascende ao píncaro
Em fuga inútil
A palavra mais rara
Revela-se frágil
O corpo retém
Na palma e no peito
A seta mortal
Trespassa os limites
O grito e o êxtase
Da última dor
Despede-se o beijo
Antes do ato
A alma faminta
Sobre a lápide fenece
O tempo de agora.


Antonio P. Pacheco 

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Ira Santa

Um homem sem sonhos
Tem dois destinos: matar-se ou se tornar assassino.
Tirem do homem sua esperança
Ele se fará uma bomba,
Personificará uma lança.
Faça-se do homem um miserável,
Desempregado, esmoler sem dignidade,
Ele se fará a quem oprime a chaga mortal,
A última praga, juiz e executor, do juizo final.
Eis como à luz do alvorecer
O homem amável e cordial
Pode ser fera, monstro incontrolável,
Na penumbra do anoitecer.
Nenhum inocente ou justo sobrevive
Escravo acorrentado, cidadão sem classe,
Se lhe arrancam à força a civilidade,
Se lhe matam na alma a humanidade.
Em tempos como estes
Há que se petrificar o amor ágape
E liberar do peito às mãos a ira santa
Neste tempo de obscuridade
Impõe-se ao mais pacífico dos homens
Pegar em armas, derramar sangue
[O seu e dos tiranos]
Nas trincheiras das ruas e praças
Em defesa da integridade
Tão humilhada e escassa
Ave, liberdade!

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Resistência


Entre os dentes a faca
Afia a alma nos amolares
Da faina sob os fardos
De esperanças raras.
Àh, os sorrisos bailantes
Dos jovens idealistas
Nas passeatas de antes,
Nas trincheiras das ruas,
Nos pátios e praças
Onde as liberdades se encontram.
Eis que os ossos
Da terra profunda clamam
A palavra “vida”
A carne do tempo perdido.
Entre o esquecimento de agora
E o altar do futuro
Um rio de sonhos
No deserto de silêncios evapora.
Nem tudo, em fim, é tristeza e dor
Sendo fértil o coração
Uma semente há de resistir
Aquela que eternamente
frutifica em amor.

/> Da Redação /> Você já parou para pensar no quintal onde cresceu? Naquele cheiro de terra molhada, no barulho do rio, no fre...